quinta-feira, 18 de abril de 2013

Craques que Nasceram no País Errado: Jürgen Croy

Às vezes, o tamanho do seu reconhecimento pode ser definido pelo lado do muro onde você nasce. Foi o caso do injustiçado goleiro Jürgen Croy.

Nascido em 19 de outubro de 1946, em Zwickau, na Alemanha ocupada pelos Soviéticos, que se tornaria, logo após, a Alemanha Oriental - também conhecida como República Democrática da Alemanha - pouco mais de um ano após a II Guerra Mundial, Croy foi um dos maiores goleiros da história. Entretanto, é muito pouco conhecido pela maioria dos fãs do Futebol.

Filho de um encanador, desde os oito anos de idade o jovem Jürgen era envolvido com o Futebol, atuando, primeiramente, como meia-atacante. Após chegar ao BSG Motor Zwickau - depois conhecido como BSG Sachsenring Zwickau, único clube que defendeu - foi "recuado" ao posto de goleiro, tendo em vista seu grande e incomum porte físico.

O seu progresso como guarda-metas foi tanto, que em 1963, com tenros 16 anos de idade, Croy teve sua primeira convocação para as seleções de base da Alemanha Oriental, em partida contra a Romênia, a qual sua equipe venceu por 4 a 1.

No ano de 1965 veio a primeira grande glória para Jürgen: o título do Campeonato Europeu Sub-18, disputado na Alemanha Ocidental. A DDR - sigla alemã para República Democrática da Alemanha - surpreenderia o mundo do Futebol, sobrepujando países tradicionais no torneio, como a Holanda, Tchecoslováquia e, na final, a poderosa Inglaterra, que viria a ser campeã do mundo no ano seguinte.

Atuou nas divisões de base e na equipe reserva do Zwickau até a temporada 1965-66, quando, aos 19 anos de idade, substituiria Peter Meyer. Só deixaria o posto de titular no ano de 1981, quinze temporadas depois, quando se aposentou.

Em 1967, venceu o primeiro de apenas dois títulos com o seu clube, a Copa da Alemanha Oriental. No mesmo ano, receberia sua primeira convocação para a seleção principal da DDR, sendo reserva do mais experiente Wolfgang Blochwitz. O seu status de reserva duraria pouco, pois em 1968 já assumiria a titularidade, sendo absoluto até 1979.

Jürgen Croy ainda era praticamente desconhecido pelo mundo, até 1974, única oportunidade em que a DDR disputaria a Copa do Mundo.

Na maior vitrine futebolística do Futebol mundial, demonstraria sua grande técnica, atuando muito bem em todas as partidas. Em especial, fez parte de uma das partidas mais polêmicas já disputadas em uma Copa do Mundo, um embate contra a Alemanha Ocidental, na Primeira Fase de Grupos.

Neste certame, a totalmente inferior DDR bateu sua co-irmã Ocidental por 1 a 0, com um gol de Jürgen Sparwasser. Entretanto, os ocidentais pareciam desinteressados na partida, e suspeitava-se de uma fraude no tal resultado. 

Analisando-se a tabela de classificação, valia mais a pena para a Alemanha Ocidental classificar-se em segundo lugar no grupo, para enfrentar na próxima fase a Iugoslávia, Suécia e Polônia. Em contrapartida, a DDR enfrentaria, tendo se classificado em primeiro lugar, o Brasil, Holanda e Argentina na fase seguinte.

Entretanto, polemicamente ou não, Croy se destacou como o melhor jogador de sua seleção, por conta das suas atuações seguras, pelas defesas cheias de reflexo e pelo garbo com o qual comandava a sua defesa.

Curiosamente, Croy era um dos poucos atletas da Seleção da Alemanha Oriental a não atuar pelas grandes potências de seu país - Magdeburg, Hansa Rostock, Dynamo Dresden e Carl Zeiss Jena - o que demonstrava ainda mais a sua qualidade como goleiro.

Em 1975, o Zwickau conquistou seu segundo e último título com Jürgen no gol, novamente a Copa da Alemanha Oriental. Croy foi o herói da final contra o superior Dynamo Dresden, defendendo duas penalidades após o tempo normal, e levando o clube para a Cup Winners' Cup - para nós, a Recopa da Europa - onde atingiriam um feito praticamente inacreditável.

Após uma trajetória fantástica, batendo, respectivamente, Olympiakos, Fiorentina - duelo que foi para a disputa de pênaltis, na qual, curiosamente, Croy converteu uma cobrança -, e Celtic, o BSG Zwickau sucumbiu apenas nas semi-finais, para o campeão e fantástico escrete do Anderlecht, no placar agregado de 5 a 0. Seria a última vez em que Croy disputaria um torneio de clubes internacional.

Incrivelmente, Jürgen sofreria, até o embate contra o Anderlecht, apenas 2 gols em seis partidas.

Após uma medalha de bronze nas Olimpíadas de Munique, em 1972, Jürgen Croy conquistaria sua grande glória, a medalha de ouro nas Olimpíadas de 1976, em Montreal, no Canadá, depois de uma vitória na final por 3 a 1 contra a fortíssima Polônia. Suas atuações no torneio lhe renderam grande reconhecimento no seu país, inclusive recebendo o título de Cidadão Honorário de Zwickau, sua terra natal.

A partir deste momento, Croy apenas atuou incessantemente e admiravelmente pelo BSG Zwickau, até o final de sua carreira, em 1981. Disputou, ao todo, nas suas 17 temporadas como jogador, 372 partidas oficiais pelo seu clube, deixando de jogar apenas 44 vezes por lesões sofridas.

No ano de 1983, Jürgen Croy foi apontado como treinador do Zwickau, permanecendo no cargo até 1988. Na sua trajetória, conseguiu duas vezes a promoção para a DDR-Oberliga, a primeira divisão nacional.

Atuou brevemente como Vice-Presidente da Federação de Futebol da Alemanha Oriental, até a queda do Muro de Berlim e a consequente reunificação com a Alemanha Ocidental, em 1990. Após, passou a se envolver com a prefeitura de Zwickau, atuando de 1994 a 2000 como Secretário de Cultura, Educação e Desporto, e desde 2000, é o Diretor-Geral da Câmara de Comércio, Turismo e Cultura da cidade.

Foi eleito o melhor jogador de seu país nos anos de 1972, 1976 e 1978, bem como considerado um dos maiores futebolistas da história da DDR, em eleição realizada em 1989.

Ainda, atuou 94 vezes com o uniforme da Alemanha Oriental, sendo o terceiro maior jogador em convocações pelo seu país.

Croy era um grande goleiro, em todos os aspectos possíveis. Com 1,90 m de altura e 85 kg, era um arqueiro alto e forte para a sua época; Entretanto, possuía grande velocidade, agilidade e reflexos muito apurados, o que o tornava capaz de defesas espetaculares.

Além das qualidades físicas, possuía também grande controle sobre seus defensores e sobre a situação dentro da grande área. Tinha boa qualidade com os pés, algo raro para um goleiro da época, além de sair muito bem do gol, bem como um ótimo posicionamento debaixo das traves.

Especialmente, era um atleta que, ao contrário da maioria, trabalhava fabulosamente sob pressão, e crescia nos momentos difíceis de seu time. Para completar, era um goleiro altamente confiável e regular, produzindo temporadas sólidas nas balizas do Zwickau e da Alemanha Oriental.

Foi considerado, no auge de sua carreira, um dos maiores goleiros da Europa, juntamente a grandes lendas do esporte, como Sepp Maier e Dino Zoff. A própria IFFHS, em alguns de seus rankings, o posicionou entre os 6 maiores goleiros da história do Futebol.

Apesar de sua qualidade indiscutível, Jürgen teve raras oportunidades de mostrar sua classe para o mundo, o que justifica parcialmente o pouco conhecimento do público em geral sobre a sua técnica.

Além disso, atuou profissionalmente apenas pelo clube da sua cidade natal, o BSG Zwickau, o que limitou sua visibilidade à poucas aparições em torneios continentais, bem como apenas dois títulos em nível nacional.

Tivesse Jürgen Croy nascido do outro lado do Muro de Berlim, muito provavelmente, teria sido ele o goleiro campeão do mundo em 1974, no lugar ocupado pelo igualmente majestoso Sepp Maier.

Infelizmente, poucos puderam realmente apreciar a grandeza das atuações de Croy. Entretanto, aqueles que puderam assisti-lo vestindo as cores azul e branca de seu país, bem como as cores do Zwickau, merecidamente o consideram um dos maiores arqueiros a pisar num campo de Futebol em todos os tempos.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Craques que Não Assistimos Jogar: Bert Trautmann

Um homem de sorte, mas, antes de qualquer coisa, bravo e vitorioso.

Ex-soldado paraquedista alemão, prisioneiro na Segunda Guerra Mundial, radicado na Inglaterra, que se tornou goleiro de Futebol aos 25 anos de idade, e que venceu uma FA Cup jogando com o pescoço quebrado. 

Roteiro de filme? Não, apenas o breve resumo da história do Craque que não Assistimos Jogar do post de hoje, Bert Trautmann.

Nascido em 22 de outubro de 1923, em Walle, na Alemanha, o jovem Bernhard Trautmann, desde cedo, era um aficionado por esportes, sendo bem sucedido em várias modalidades na sua infância.

Em 1941, juntou-se à Luftwaffe, a Força Aérea Alemã, iniciando como operador de rádio. Trautmann escapou diversas vezes da morte, estando presente, inclusive, na invasão aliada sobre a Normandia, e foi condecorado pelas suas participações nos eventos na Frente Oriental, recebendo a Cruz de Ferro.

Em 1944, o já sargento Trautmann foi promovido a combatente corpo-a-corpo, e com as seguidas derrotas do seu exército, decidiu desertar de sua unidade. Com medo de ser morto pelas próprias tropas alemãs, acabou sendo capturado por soldados americanos. Conseguiria fugir do aprisionamento, apenas para ser pego logo após por um soldado inglês. Não era a primeira ocasião em que Trautmann fugia, tendo sido também capturado pelo exército russo e pela Resistência Francesa. Nesta vez, entretanto, ele não tentaria fugir.

Dentre as suas diversas transferências de prisão sob posse do exército inglês, acabou em Ashton-in-Makerfield, campo de aprisionamento na própria Inglaterra. Lá, fez sucesso nas partidas de Futebol jogadas no presídio, atuando no meio de campo. Entretanto, após uma lesão sofrida, decidiu trocar de posições com um companheiro de equipe, iniciando involuntariamente uma das mais peculiares carreiras de goleiro da história.

Com o fechamento da prisão, em 1948, Trautmann decidiu não voltar para a Alemanha, e se estabeleceu ali mesmo, tornando-se fazendeiro, e jogando ocasionalmente no clube amador St. Helens Town. Fez um sucesso tremendo como goleiro, atraindo o interesse de vários clubes profissionais. O primeiro clube a lhe fazer uma proposta foi o Manchester City, que, em 1949, o contratou como amador, e o profissionalizou meses depois.

O seu início de carreira pelo Manchester City não foi livre de controvérsia. Os torcedores estavam indignados com a contratação de um ex-soldado da Luftwaffe, e ameaçaram realizar um boicote ao time. Além disso, Trautmann estava substituindo Frank Swift, um dos maiores goleiros da história do clube até então.

Entretanto, Bernhard foi bem recebido pelos seus colegas de equipe, incluindo o veterano de guerra e capitão do time, Eric Westwood, que declarou que não existiria guerra no vestiário do Manchester City. Foi lá que ganhou o apelido de Bert, pois era muito complicado para os seus companheiros de equipe, bem como para a imprensa local, chamá-lo de Bernhard.

Em seu primeiro jogo, recebeu vaias e xingamentos fortíssimos de sua torcida, contra o Bolton Wanderers. Trautmann teve uma atuação fantástica, e os protestos foram diminuindo a cada partida em que exibia seu estilo arrojado.

Na sua primeira partida jogada em Londres, em 1950, contra o Fulham, Trautmann foi recebido em um clima totalmente hostil. A torcida ainda tinha latente os danos que a Luftwaffe tinha causado à sua cidade, e Bert era o alvo da retaliação. Recebido com gritos de "Nazi" e "Kraut", e com o City em péssima fase na Liga, Trautmann teve uma das maiores atuações da carreira, evitando uma derrota de proporções estratosféricas, concedendo apenas um gol. Foi aplaudido de pé por ambas as torcidas, bem como por todos os jogadores em campo.

Após o rebaixamento em 1950, o City voltou à Primeira Divisão no ano seguinte, e nos próximos anos, Bert iria se consolidar como um dos maiores goleiros da Inglaterra. Suas atuações levaram a uma proposta do Schalke 04, que ofereceu ao City £1,000 por seu passe, o que, na época, era um valor muito bom. O clube rejeitou a proposta, declarando que o goleiro alemão valia, pelo menos, 20 vezes este montante.

Trautmann, além de realizar atuações memoráveis, tornou-se um goleiro inovador. No meio da década de 50, o treinador do City, Les McDowall, implantou um sistema de jogo que incluía um atacante bastante avançado, quase um centro-avante, que seria ninguém menos que o lendário Don Revie. 

O sistema tático de McDowall dependia da manutenção da posse de bola da equipe. Como, na época, os goleiros geralmente davam um balão para a frente assim que pegavam a bola, Bert teve de usar suas habilidades manuais - antes de ser jogador de futebol, jogou handebol - aprimorando seus lançamentos rápidos e longos, inspirados no goleiro húngaro Gyula Grosics.

Para iniciar os ataques, ou contra-ataques, Trautmann lançava a bola para os pontas, especialmente Ken Barnes ou John McTavish, iniciando as investidas com muita velocidade. Nesse sistema de jogo, o Manchester City atingiu a final da FA Cup de 1955, e Bert foi o primeiro alemão a disputar uma final de copa na Inglaterra. Infelizmente, o City sucumbiu ao mais forte Newcastle United, pelo placar de 3 a 1.

Em 1956, o Manchester City voltaria à final da FA Cup, depois de outra grande temporada. E nesta partida, Bert Trautmann atingiria status de mito no Futebol inglês. Após ter ganho a honraria de ser eleito o melhor jogador da Inglaterra na temporada, o primeiro goleiro a atingir este feito, Trautmann enfrentaria o Birmingham City no maior jogo da temporada.

Após o City liderar por 3 a 1, aos 30 minutos do segundo tempo, Peter Murphy, do Birmingham, foi lançado dentro da área, e Trautmann saiu aos seus pés. Em um choque fortíssimo, Trautmann e Murphy dividiram a bola, e Murphy atingiu o goleiro alemão no pescoço com o seu joelho (assista ao lance aqui: http://www.youtube.com/watch?v=rQWLuQPDs0o). O impacto foi tão forte que Bert havia quebrado o pescoço, literalmente.

De uma forma incrível, Trautmann levantou-se e continuou na partida - substituições não eram permitidas na época - realizando ainda outras defesas espetaculares. O Manchester City venceu a FA Cup, e Trautmann foi elevado a herói da conquista, merecidamente.

Após a partida, Bert foi à cerimônia de entrega do troféu, mesmo sem poder mexer a cabeça. No dia seguinte, descobriu que havia deslocado cinco vértebras do seu pescoço, tendo escapado da morte por meros detalhes.

Sua lesão o levou a perder muitas partidas da temporada 1956-57, e quando retornou, havia perdido a confiança em suas atuações. Entretanto, o corajoso goleiro retornou à boa forma, atuando como titular do Manchester City até o ano de 1964, quando se despediu em frente à uma plateia de cerca de 60 mil espectadores.

Ainda disputou duas partidas pelo Wellington Town, antes de se aposentar definitivamente do Futebol profissional.

Bert, desafortunada e injustamente, nunca atuou pela seleção de seu país, por conta de questões políticas. O treinador da época, Sepp Herberger, chegou a se reunir com ele, tendo dito que a Federação de seu país não permitia convocá-lo por não jogar na sua liga.

Um goleiro sem medo e dotado de grande frieza e inteligência, Trautmann tinha aproveitamento excelente contra cobranças de pênalti, defendendo 60% delas durante sua carreira. Ídolo de uma geração de goleiros, como Gordon Banks e Bob Wilson, bem como de seus contemporâneos, como o fantástico Lev Yashin, era também um homem de personalidade forte, tendo às vezes perdido a concentração com os seus próprios erros numa partida.

Entretanto, foi inovador e exemplo de coragem e dedicação a um time, tendo jogado praticamente a carreira inteira pelo Manchester City. Recebeu, ainda, uma homenagem por meio de seu nome em uma das arquibancadas do antigo estádio do City, Maine Road.

O mítico treinador Matt Busby, antes de disputar partidas contra o Manchester City, sabendo da capacidade de Bert para ler o pensamento dos seus adversários, dizia aos seus jogadores: "Não parem para pensar onde vão chutar. Chutem primeiro, e depois pensem. Se vocês olharem para a goleira e pensarem, Trautmann vai ler o seu pensamento e defender seu chute". Na mesma linha, o seu companheiro de equipe, Neil Young, declarou: "A única maneira de marcar um gol contra Bert, no treinamento, era errando o chute".

Sua defesa na FA Cup de 1956 foi eleita a maior defesa de todos os tempos na FA Cup, merecidamente.

Trautmann é membro do Hall da Fama do Futebol inglês, e recebeu a honraria da Oficial da Ordem do Império Britânico, por sua contribuição ao Futebol.

Mora hoje em uma casa de praia, em Valencia, na Espanha, com sua atual esposa. Ainda torce pelo Manchester City e pela Inglaterra, o lugar onde foi recebido.

Um vitorioso, tanto na vida, quanto na carreira profissional, Bert Trautmann é um dos grandes jogadores que, infelizmente, não pudemos ver jogar.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Grandes Treinadores: Tomislav Ivić

O grande treinador de hoje é um dos maiores vencedores da história do Futebol. Um cosmopolita, que passou em clubes de 14 países diferentes. Além de ser vencedor, foi um dos treinadores que ajudou a modernizar o jogo. Trata-se da lenda Tomislav Ivić.

Nascido em Split, na época, Reino da Iugoslávia (hoje Croácia), em 30 de junho de 1933, Ivić foi um jogador de sucesso modesto, começando a sua carreira e permanecendo por quatro temporadas no RNK Split, se transferindo em 1957 para o Hajduk. Em 1963, encerrou sua carreira de jogador, aos trinta anos de idade.

Em 1965, Ivić satisfez os seus anseios de se tornar treinador de Futebol, cursando a Escola de Técnicos em Belgrado. Um aluno exemplar, foi o melhor da sua classe, com nota média de 10.

Em Split, sua cidade natal, iniciou sua carreira de treinador, no mesmo clube que o formou, o RNK. Começava uma das carreiras mais vitoriosas de todos os tempos no Futebol. Permaneceu por um ano treinando o RNK.

Em 1968, foi contratado pelo Hajduk, para treinar as categorias de base do clube. Formou inúmeros grandes jogadores em 4 anos de trabalho, e passou a despertar interesse em muitos clubes. O trabalho de Ivić seria colhido por si próprio anos depois, quando voltaria ao Hajduk.

Para a temporada de 1972, foi contratado pelo pequeno Šibenik, onde trabalhou por uma temporada, antes de treinar brevemente a Seleção da Iugoslávia, até 1974. Até aí, nenhum título conquistado.



Em 1974, Ivić retornou para o Hajduk. Com a chamada "Geração de Ouro" do clube, Tomislav Ivić conquistaria vários títulos em nível nacional. Com uma equipe praticamente montada de jogadores formados pelas categorias de base do clube, fruto do trabalho do próprio Ivić, o Hajduk conquistou, de 1973 a 1976, dois Campeonatos da Iugoslávia - 1974 e 1975 - e quatro Copas da Iugoslávia - de 1972 a 1974 e 1976.

Comandou um time recheado de craques, como Petar Nadoveza, Ivan Katalinić, Dragan Holcer, Jurica Jerković, Luka Peruzović, Vilson Džoni, Brane Oblak, Dražen Mužinić, Ivica Šurjak, Ivan Buljan, Slaviša Žungul e os irmãos Zoran Vujović e Zlatko Vujović.

Depois do grande sucesso no Hajduk, foi contratado pelo gigante holandês Ajax, ficando em Amsterdã por duas temporadas e conquistando o Campeonato Holandês na temporada 1976-77, depois de um jejum de quatro anos sem títulos..

De 1978 a 1980, voltou ao Hajduk, conquistando mais um Campeonato da Iugoslávia, em 1979.

Em 1980, foi contratado pelo belga Anderlecht.  Ivić contratou diversos reforços para o clube, como os grandes Morten Olsen, Wim Hoefkens e Luka Peruzović, conquistando o Campeonato da Bélgica na sua primeira temporada, 1980-81. Em 1981-82, atingiram as semi-finais da Copa dos Campeões da Europa, sendo eliminados pelos futuros campeões, o Aston Villa.

Depois do Anderlecht, teve várias passagens rápidas em diversos clubes. De 1983 a 1984, treinou o Galatasaray; de 1984 a 1985, voltou à Iugoslávia para treinar o Dinamo Zagreb; de 1985 a 1986, treinou o pequeno Avellino, da Itália; ainda em 1986, treinou o Panathinaikos por sete partidas, conquistando o Campeonato Grego; e do fim de 1986 a 1987, retornou novamente ao Hajduk. O que parecia uma carreira turbulenta sofreria uma grande reviravolta.

Em 1987, foi contratado pelo Porto, de Portugal. Montando um time recheado de craques, como o argelino Rabah Madjer, o goleiro polonês Józef Młynarczyk, os portugueses Paulo Futre, António André, Rui Barros e Fernando Gomes e os brasileiros Juary e Geraldão, conquistaria uma série de glórias pelos Dragões.



Na sua temporada inicial, 1987-88, levou o Porto ao título inédito da Copa dos Campeões da Europa, batendo o Bayern de Munique na Final. Ainda na mesma temporada, numa partida espetacular, venceu o Peñarol, conquistando a Copa Intercontinental, e conquistou a Supercopa da Europa.

No ano de 1988, ao fim da temporada, levou ainda o Campeonato Português e a Copa de Portugal. Um feito simplesmente impressionante. Jamais um treinador em Portugal havia conquistado todos os títulos disputados por um mesmo clube. Tornou-se um dos maiores ídolos da história do clube, mesmo treinando os Dragões por apenas uma temporada.

Em 1988, transferiu-se ao Paris St. Germain, ficando por lá até 1990. Para a temporada 1990-91, comandou o Atlético de Madrid, conquistando a Copa del Rey. Manteve-se em Madri por pouco tempo, por conta da personalidade imbecil do presidente Jesús Gil, que demitia treinadores na medida que bebia copos d'água.

Teve uma passagem rápida pelo Olympique Marseille, ainda em 1991, ajudando o clube a conquistar o título do Campeonato Francês.

Voltou a Portugal em 1992, treinando o Benfica e o Porto mais uma vez.

Em 1994, foi apontado treinador da Croácia, auxiliando o país a alcançar classificação pela primeira vez a uma competição internacional, a Euro '96. Liderou os croatas em vários jogos históricos, o mais importante deles, uma vitória contra a Itália em Palermo, por 2 a 1.

Em 1995, foi contratado pelo Monaco como consultor, sendo contratado no mesmo ano pelo Fenerbahçe para o mesmo papel.

De 1995 a 1996, foi para os Emirados Árabes Unidos, treinando a Seleção do país, e o Al-Wasl.

Em 1997, voltou por pouco tempo para o Hajduk, exercendo o cargo de vice-presidente do clube. No mesmo ano, se transferiu para o Irã, onde treinaria a Seleção nacional até meados de 1998.

Com sua carreira se encaminhando para o final, voltou à Bélgica para passar dois anos comandando o Standard Liége, de 1998 a 2000. Passaria mais uma vez pelo Marseille rapidamente, em 2001, encerrando sua carreira no Al-Ittihad, da Arábia Saudita.

Tomislav Ivić faleceu em 24 de junho de 2011, uma semana antes do seu septuagésimo-oitavo aniversário, em decorrências de problemas cardíacos.

Ivić era um treinador extremamente dedicado e disciplinado, mas ao mesmo tempo, um ser humano adorável e divertidíssimo. Adorava fazer brincadeiras com seu grupo de jogadores, além de tratar todos com carinho e atenção.

Metódico, quando se lembrava de alguma coisa, anotava no seu bloquinho de notas, e não tinha receio de ordenar três treinos diários aos seus jogadores.

Além disso, Ivić foi um cosmopolita, falando fluentemente inglês, francês, português, espanhol e alemão, além da sua língua nativa, o servo-croata.

Recebeu a honraria da Insígnia de Ouro do Hajduk em 1975, por conta de seus grandes serviços prestados ao clube.

Ainda, em 2007, o periódico desportivo italiano Gazzetta dello Sport escolheu Tomislav Ivić o treinador mais bem-sucedido de todos os tempos, por ter conquistado oito títulos nacionais em sete países diferentes. Ivić treinou clubes e seleções em 14 países diferentes, além de treinar quatro seleções nacionais, um feito histórico.

O legado do croata ficará na memória do mundo todo, como um treinador extremamente vitorioso, bem como pelo seu grande coração e seu carisma sensacional. Obrigado por tudo, Tomislav Ivić.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Grandes Uniformes: Copa do Mundo (Parte 5)

Hoje o post é dedicado aos grandes uniformes utilizados na Copa do Mundo de 1994, um dos torneios mais lembrados de todos os tempos. Época de camisas muito grandes, de cores vistosas, inacreditáveis!

Talvez, das últimas 5 edições, foi onde o maior grupo de grandes craques se apresentou simultaneamente. Stoichkov, Hagi, Romário, Rijkaard, Baresi, Preud'Homme, Klinsmann, Matthäus, Hierro, Maradona, Larsson, Scifo, Sánchez, Valderrama, Taffarel, Ravelli, Redondo... Foi um torneio mágico.

Vamos à listagem então!

Bélgica - Home:

A Bélgica, assim como a Noruega, tinha um time muito talentoso e entrosado. Craques como o goleiraço Michel Preud'Homme e os jogadores de linha Enzo Scifo e Luc Nilis abrilhantavam o esquadrão Belga. Fizeram uma boa campanha, sendo eliminados nas oitavas-de-final pela forte Alemanha.

O uniforme dos belgas é memorável, com as cores tradicionais, mas com detalhes marcantes na parte dos ombros. Camisas, calções e meias vermelhas, com detalhes em uma faixa branca no ombro e desenhos em preto e amarelo.













Brasil - Home:

Indiscutivelmente, entre os uniformes mais legais e marcantes da Copa de 1994, está o da Seleção Canarinho, a Campeã do Mundo daquela edição. Os comandados de Carlos Alberto Parreira jogaram um Futebol pragmático, fechado, contando com Romário, para vencer a Copa.

O uniforme era sensacional, da Umbro, com um detalhe no fundo do símbolo da CBF. Camisas amarelas e golas verdes, calções azuis e meias brancas.
















Alemanha - Home:

A Seleção defensora do título na edição, a Alemanha contava com um time muito forte, mas já envelhecido. Na primeira edição como Alemanha unificada, foram primeiros colocados no grupo, mas eliminados nas quartas-de-final pela surpreendente seleção da Bulgária.

O uniforme foi bem parecido com o de 1990, com a camisa branca e detalhes nas cores da bandeira alemã na parte superior da camisa, calções pretos e meias brancas. Um uniforme até hoje lembrado pela ousadia.









Estados Unidos - Away:

Esse é o uniforme mais marcante, pra mim, de todos os tempos das Copas do Mundo. Os anfitriões da Copa, os Estados Unidos tinham um time pitoresco, com figuraças, como Alexi Lalas, Marcelo Balboa, Tony Meola e Cobi Jones. Mas fizeram uma campanha relativamente boa, perdendo apenas para o Brasil nas oitavas-de-final.

Não é muito fácil descrever o fardamento. Uma camisa azul com estrelas grandes e golas brancas, calções bordô e meias brancas. Um uniforme excêntrico, porém original. Particularmente, sensacional.














Argentina - Home:

A grande favorita para conquistar o torneio, à frente de Alemanha, Brasil e Itália, a Argentina tinha um esquadrão sensacional. Monstros como Batistuta, Redondo, Simeone, Sensini e claro, a lenda Maradona, desfilaram nos gramados norte-americanos. Infelizmente, a Argentina foi eliminada pela bela seleção da Romênia, nas oitavas-de-final.

O uniforme dos argentinos era o clássico, muito bonito na sua composição, camisas brancas e listras verticais azuis-celeste, calções negros e meias brancas.















Rússia - Away:

A Rússia participava pela primeira vez da Copa do Mundo, depois da divisão da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Naturalmente, a divisão dos talentos foi sentida pelo lado dos russos, que ficaram na primeira fase. Entretanto, consagraram Oleg Salenko, que marcou cinco gols na vitória contra Camarões.

Um design arrojado caracterizou o uniforme dos russos. Fabricado pela Reebok, o uniforme reserva era muito bacana, com camisa branca e detalhes assimétricos em vermelho e azul, calções azuis e meias vermelhas.

Por hoje é isso aí, pessoal. Na próxima, Copa de 1990!

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Craques que Não Assistimos Jogar: Ricardo Zamora

O craque que não pudemos assistir jogar de hoje é um dos grandes nomes da história do Futebol de seu país. É considerado até hoje uma das maiores lendas na sua posição. Um homem polêmico, sem papas na língua, mas também um herói nacional. Um monstro debaixo das traves, Ricardo Zamora.

Nascido em Barcelona, na Espanha, em 21 de janeiro de 1901, Ricardo Zamora Martinez começou a jogar por um clube local, o Universitari SC, aos 13 anos de idade. Já se mostrava um grande arqueiro, fisicamente e tecnicamente.

Foi contratado por outro clube local, desta vez um dos grandes da época, o Espanyol de Barcelona, com singelos quinze anos de idade. Em sua primeira passagem pelo clube, ajudou o clube barcelonense a conquistar o Campeonato da Catalunha, na temporada 1918-19.

Entretanto, uma discussão com diretores do Espanyol o levou a ser transferido para o clube rival da cidade catalã, o grande Barcelona. Lá, já muito experiente, apesar da pouquíssima idade - apenas 18 anos de vida - se uniu a grandes lendas da história do clube, como Josep Samitier, Sagibarba, Paulino Alcántara e Félix Sesúmaga, treinados pelo glorioso coach inglês Jack Greenwell. Entre 1919 e 1922, auxiliou o Barcelona a conquistar por três vezes o Campeonato da Catalunha, e duas vezes a Copa del Rey.

Em 1922, retornou ao Espanyol. Depois de anos sem títulos, em 1929 auxiliou o clube a ser mais uma vez campeão do Campeonato da Catalunha, treinado mais uma vez por Jack Greenwell. Conquistou um dos maiores títulos da história do Espanyol no mesmo ano de 1929, a Copa del Rey, a primeira da história do clube.

No ano de 1930, foi contratado pelo gigante Real Madrid. Junto com Zamora, viria outro grande nome, Jacinto Quincoces, uma lenda na Espanha. Os Merengues desejavam montar uma máquina. E de certa forma, conseguiram.

A temporada 1931-32 trouxe os primeiros resultados, com o Real Madrid conquistando seu primeiro título espanhol. Na temporada seguinte, o ex-Barcelona Josep Samitier se juntou ao grupo, ajudando o clube madrilenho a defender o título espanhol.

Em 1934, o treinador Francisco Bru assumiu o comando dos Merengues, com Zamora comandando a equipe para conquistar mais dois títulos da Copa da Espanha (assim nomeada na época por conta da Revolução dos Republicanos), em 1934 e 1936.

Em 1937, se transferiu para o Nice, da França, exilando-se por conta da Guerra Civil que tomava conta do país. Jogou por lá até 1938, quando se aposentou como jogador.

Em 1939, tornou-se treinador, sendo contratado pelo Atlético Aviación - hoje conhecido como Atlético de Madrid - conquistando os primeiros campeonatos nacionais do clube, em 1940 e 1941. Continuou sua carreira no Celta de Vigo, em 1946. Na temporada 1947-48, conduziu o Celta, que tinha um time relativamente fraco, a um sexto lugar no campeonato nacional e à Final da Copa del Generalíssimo - outro nome para a atual Copa del Rey.

Passou em períodos curtos pelo Málaga, a Seleção Espanhola, mais duas vezes pelo Celta e duas vezes pelo Espanyol, intercaladamente. Encerrou sua carreira de técnico, sendo empregado do Espanyol até rigorosamente o dia do seu falecimento, em 8 de setembro de 1978.

Zamora defendeu em 46 partidas a Seleção da Espanha, bem como o selecionado da Catalunha, em partidas amistosas. Ricardo Zamora fez parte do grupo da Espanha na Copa de 1934, sendo eleito o melhor goleiro do torneio, e protagonista de lances espetaculares, mágicos.

Chamado de El Divino, "O Divino" em espanhol, Zamora é um dos maiores goleiros da história da humanidade. Um jogador alto para a época - media 1,94 - era, ao mesmo tempo que seguro nas bolas altas, ágil e cheio de reflexo, capaz de defesas milagrosas, à queima-roupa. Era um pegador de pênaltis nato, defendendo inúmeros na sua carreira.

Capaz de atuações heroicas, certa feita, numa partida internacional contra a Inglaterra em 1929, continuou a jogar depois de ter quebrado o seu esterno! Ficou muito conhecido por uma defesa milagrosa na Final da Copa do Generalíssimo de 1936, contra seu antigo clube, o Barcelona, garantindo a vitória do Real Madrid.

Era um visionário, utilizando um chapéu e camiseta de gola rolê durante os jogos, tendência seguida pela maioria avassaladora dos goleiros da época e de épocas futuras.

Foi um homem de personalidade, polêmico. Admitiu certa feita ser alcoólatra, bebendo conhaque diariamente, além de fumar três carteiras de cigarro por dia. Não tinha medo de falar o que sentia, inclusive sua posição política contrária à Revolução que ocorreu na Espanha. Foi prisioneiro das tropas revolucionárias, escapando por seu carisma e por aceitar jogar Futebol com os guardas do cárcere.

Foi eleito o quinto maior goleiro da história pela IFFHS, bem como recebeu a Grande Cruz da Ordem de Cisneros, do General Francisco Franco. Ainda, dá nome ao troféu de melhor goleiro da temporada da Espanha, uma honra digna de poucos.

Um goleiro exemplar, e ao mesmo tempo polêmico, Ricardo Zamora é até hoje um dos craques mais cultuados não só da Espanha, mas do Futebol espanhol. Dificilmente irá se encontrar um homem tão corajoso e vivaz quanto ele nas goleiras do mundo todo.