segunda-feira, 29 de abril de 2013

Análise Tática - Ajax x Panathinaikos - 02/07/1971

Este post marca o retorno da seção Análise Tática do Catenaccio. O primeiro post da série é de autoria do meu amigo e grande conhecedor de Futebol, Marcelo Almendros, sobre o jogo Brasil e Suécia, no ano passado.

Entretanto, a partir de agora, a ideia é mesclar a análise tática com a história do Futebol. Ao invés de se analisarem partidas recentes, analisaremos jogos históricos, partidas marcantes.

Hoje, analisaremos a Final da Copa da Europa - como sempre ressaltamos, a atual UEFA Champions League - do ano de 1971, disputada entre Ajax, da Holanda, e Panathinaikos, da Grécia.

O Ajax, clube holandês com uma equipe treinada pelo majestoso professor Rinus Michels, que revolucionaria o mundo do Futebol com um jeito inteligente, ousado e eficaz de se jogar bola.

O Panathinaikos, clube grego, treinado no torneio pelo não menos espetacular Ferenc Puskás, que contava com uma equipe de muita raça, pegada e determinação, além do apoio maciço de sua fanática torcida.

Antes de passarmos à análise tática propriamente dita, faremos um breve histórico das campanhas de ambos os times até a partida Final da Copa da Europa.


Ajax:

Com o time campeão holandês da temporada anterior, Rinus Michels comandaria talvez a equipe mais talentosa da competição, contando com craques como o incomparável Johan Cruyff, o jovem Johan Neeskens, os atacantes Piet Keizer e Dick van Dijk, e os meias Gerrie Mühren e Arie Haan.

Entretanto, o início da campanha foi muito conturbado. O Ajax enfrentou, na primeira rodada, o inexpressivo 17 Nëntori Tirana, da Albânia. Depois de um empate inesperado em 2 a 2 fora de casa, bateram o clube albanês em Amsterdam por 2 a 0.

Na segunda rodada, o trabalho foi mais fácil, contra o Basel, da Suíça. No placar agregado de 5 a 1, passaram tranquilamente de fase. 

Nas quartas e semi-finais, o Ajax passaria no placar agregado em ambas oportunidades de 3 a 1, vencendo por 3 a 0 em casa e perdendo de 1 a 0 fora, primeiro para o Celtic, da Escócia, e depois para o Atlético de Madrid, da Espanha.


Panathinaikos:

O Panathinaikos, assim como seu adversário, era o campeão nacional do ano anterior. O ex-craque Ferenc Puskás treinava o esquadrão grego, que tinha como grandes talentos o habilidoso meia Dimitris Domazos, o maior jogador da história de seu país, e o artilheiro da competição, Antonis Antoniadis, centroavante guerreiro e ótimo cabeceador. No restante, tratava-se de uma equipe apenas disciplinada e raçuda.

Enfrentou o Jeunesse Esch, de Luxemburgo, na primeira fase, passando com facilidade no placar agregado de 7 a 1. Na segunda fase, enfrentariam o Slovan Bratislava, na época, da Tchecoslováquia, vencendo a primeira partida por 3 a 0, em Atenas, e perdendo o segundo jogo por 2 a 1.

Nas quartas-de-final, o Pana enfrentaria o forte e tradicional Everton, da Inglaterra. Contrariando as expectativas, os gregos alcançariam a fase semi-final, empatando as duas partidas, a primeira em Liverpool por 1 a 1 e a segunda, em Atenas, em 0 a 0. Logo, se classificaram devido ao gol marcado fora de casa.

Quem esperava os gregos no enfrentamento era o poderosíssimo e assustador Estrela Vermelha, da Iugoslávia. A expectativa, mais uma vez, era de um atropelo para cima do Panathinaikos, o que de fato aconteceu na primeira partida, uma vitória de 4 a 1 para os iugoslavos em Belgrado. Placar irreversível? Não para os guerreiros atenienses!

Em um Apostolos Nikolaidis - estádio do Panathinaikos - completamente lotado, e com o apoio de uma torcida apaixonada, que empurrou o seu time o tempo todo, o Pana conseguiu vencer o Estrela Vermelha pelo placar de 3 a 0, em um jogo tenso e emocionante, com dois gols do matador Antoni Antoniadis. Os gregos chegariam a Final se classificando, mais uma vez, pelo gol marcado fora de casa.

Seria a primeira e única vez na história de todas as competições interclubes europeias que um clube grego alcançou a partida Final.


O Jogo e Análise Tática:

Escalações e Formação:

O Ajax foi a campo com: Stuy; Neeskens, Hulshoff, Vasovic, Suurbier; Rijsders, Mühren, Cruyff; Swart, van Dijk e Keizer. Técnico: Rinus Michels.

O Panathinaikos estava escalado com: Ikonomopoulos; Tomaras, Kapsis, Sourpis, Vlahos; Kamaras, Eleftherakis, Domazos; Grammos, Antoniadis e Filakouris. Técnico: Ferenc Puskás.

Ambas as equipes atuaram no 4-3-3, com os desenhos táticos conforme demonstrado na figura abaixo.























Análise Tática:

Embora os dois times estivessem dispostos territorialmente no 4-3-3, formação tradicional do Futebol e em voga na época, ressalta-se aqui a diferença de movimentação e de posicionamento entre as duas equipes.

O Panathinaikos atuava de forma estática em relação à sua formação, ou seja, raramente os atletas alternavam posições entre si, não se distanciando de seu ponto referencial no campo. Em poucas oportunidades, Domazos, o jogador mais técnico da equipe, se movimentava com maior liberdade para tentar criar chances de ataque.

Já a equipe do Ajax dava a primeira amostra do que seria o Futebol Total - modelo de jogo adotado pelo próprio time, e depois, pela Seleção Holandesa - com praticamente todos os seus jogadores em movimentação constante, ocupando os espaços deixados uns pelos outros com muita frequência.

Para se ter uma ideia, apenas três jogadores se mantinham praticamente estáticos em relação ao seu posicionamento: obviamente, o goleiro Stuy, e os zagueiros, Hulshoff e Vasovic. O restante se movimentava freneticamente, alternando posições e trocando passes com precisão.

Abaixo, demonstraremos o posicionamento do meio de campo de ambas as equipes.

Como pode-se perceber, o Panathinaikos atuava com um triângulo de base alta, ou seja, um centro-médio e dois meias, com Eleftherakis fazendo o papel de contenção, Kamaras atuando mais como apoiador e Domazos responsável pela criação da equipe.

O Ajax também atuou com três meio-campistas, embora sem uma formação definida entre eles:


Embora a figura demonstre um triângulo de base baixa, essa disposição era variável. Os três meias tanto faziam o papel de centro-médios quanto de meias de armação, devido ao sistema de movimentação ao qual já nos referimos antes.

Outro ponto que é de importante notoriedade é a intensa marcação imposta pela equipe de Amsterdam.

Uma novidade para a época, a marcação por pressão alta era característica da maioria dos times holandeses. O Ajax, sempre que se iniciava um ataque da equipe grega, pressionava o detentor da posse de bola, como demonstraremos na imagem a seguir:


Esta imagem demonstra claramente a marcação exercida pelos holandeses. Neste frame, demonstra-se a pressão alta com seis jogadores da equipe do Ajax, prejudicando a saída de jogo do Panathinaikos.

Com isso, a equipe grega não conseguiu trabalhar a posse de bola na sua capacidade técnica total, forçando passes longos visando o atacante Antoniadis, que tinha raro sucesso entre os dois zagueiros nederlandeses.

Ao contrário de seus adversários, o Ajax trabalhava a posse de bola com muitos passes e com muita movimentação, explorando a versatilidade e a capacidade técnica de todos os seus jogadores, sem exceção.

Além da superioridade tática, o Ajax contava com jogadores de grande capacidade técnica, como Johan Cruyff, que atuou pelo lado esquerdo, ora como meia, ora como ponta, explorando as jogadas individuais e passes verticais.

Um outro ponto peculiar foi a utilização do meia Johan Neeskens na lateral-direita. Na verdade, é uma característica das categorias de base do Ajax, que experimenta jogadores jovens em posições fora das suas originais, para fazê-los passarem pela experiência dos jogadores adversários.

Esses fatos, apesar da grande raça e vontade de vencer da equipe grega, levaram à vitória tranquila dos holandeses por 2 a 0, e o título incontestável de Campeão da Europa.


Resumo da Partida:

O Ajax abriu o placar já no início da partida, depois de boa jogada do ponta-esquerda Keizer, cruzando para a cabeçada precisa do centroavante van Dijk, marcando 1 a 0.

A partida se desenrolou com diversas chances desperdiçadas pelo esquadrão alvi-rubro, atacando com facilidade entre os espaços obtidos entre a equipe do Panathinaikos.

Os gregos, contando com a técnica de Mimis Domazos, tentaram incessantemente a ligação direta com seu centroavante, Antonis Antoniadis, levando perigo poucas vezes ao gol de Stuy.

A dominação durou toda a partida, culminando com o segundo gol dos holandeses, marcado pelo meia Arie Haan, que entrou no segundo tempo, aproveitando uma assistência fantástica de Cruyff, depois de jogada individual pelo flanco direito. O arremate ainda desviou em um defensor do Panathinaikos, tirando as chances de defesa do arqueiro Ikonomopoulos.

Esta seria a primeira grande amostra da revolução futebolística que viria dos Países Baixos, criada pelos holandeses, o Futebol Total.

O Ajax, jogando com a mesma base da equipe, mas já sem o treinador Rinus Michels, conquistaria a Copa da Europa nos dois anos seguintes, impressionando o mundo.

O reflexo do Futebol Total seria ainda mais amplificado na Copa do Mundo de 1974, com a seleção da Holanda, treinada por Rinus Michels, que espantaria o planeta com a forma inteligente e revolucionária de se praticar o esporte bretão.

O modelo de jogo criado pelos holandeses é utilizado, em variações, até os dias de hoje, aliado ao preparo físico cada vez mais forte dos atletas que o usam, bem como explorando as deficiências técnicas e táticas que assolam o Futebol atual.

Abaixo, segue o vídeo da partida na íntegra. Bom proveito!

 

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